Os arquivos de música antes aqui presentes foram exportados para o blog Aberrações Sonoras.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Rancor






Uma esteira de rancor se estende diante de mim. Olho fixamente para ela... vejo que ela se move lentamente, sobre ela há algo que não é visível aos meus olhos. Penso em caminhar sobre aquela construção de minha mente, mas meus pés parecem não me obedecer. Não consigo discerni-la direito, então em vez de enxergá-la, tento senti-la. Para isso fecho meus olhos e inflo meus pulmões com o ar que a cerca. Tento penetrar nos resquícios de vida que há. Mas nada encontro.
Tento fugir da lembrança desta esteira... Sair mentalmente daqui. Mas quanto mais eu tento ignorá-la, mais presente ela se faz. E assim percebo minha angústia caminhar sobre a esteira do rancor, não parece querer tirar os pés dali, por mais que isso a afete. Eis que paradoxalmente surge um senhor, demasiado idoso, de barba grisalha, que me diz:
- Estamos todos dentro de ti. Saia de ti, que verás o quão falso e abstrato são tuas visões... Acorda-te para a vida!
- Que faço para sair de mim, meu senhor?
- Deves menosprezar teus sofrimentos.
- Não o conseguiria, eles são parte inerente de mim.
- Deves então ignorar o apego que tens a esse sofrimento.
- Mas sinto tanta necessidade deles!
- Esforça-te. Necessita-te mais da ausência, para que haja maior alívio em tua pertubada mente. Dever-te-ás exterminá-los.
- Pede-me o improvável.
- Peço-te algo perfeitamente possível, tu temes demais. Não queres o bem. Desejas somente o mal a ti. E esse mal é essa esteira, sobre a qual caminha a tua angústia.
- Quem és tu, meu senhor? De onde vem tua intenção em concertar-me?
- Sou algo que tu mesmo criastes, como tudo que há aqui, portanto, não tenho nome. Sou o contraponto, a consciência tentando triunfar sobre a loucura. Espanta-me ver-te que não me reconheces.
- Estou atordoado... não consigo compreender mais nada... quero fugir disto tudo. Quero abstrair-me para o nada. Quero desfazer-me de tais ilusões...
- Portanto, queres aquilo que te aconselho...
- Mas não seria penetrar ainda mais na irracionalidade?
- Seria uma irracionalidade manter-te dentro deste mundo artificial criado por ti.
- Creio que só a morte poderia fazê-lo...
Mas eis que repentinamente, antes que o velho respondesse, surge a Lucidez, para dar uma pincelada sobre meus delírios. E vejo-me diante de um microcomputador, em pleno horário de expediente, descrevendo minhas alucinações. Percebo que minha vidinha continua a mesma. Estática, morna, imóvel, desprovida de qualquer dinâmica. Parada no tempo, sendo dominada pelo mover dos ponteiros de relógios. Presa a todo este rancor indissolúvel.


Figura: Dave McKean - Moth

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Os anos se passaram



Os anos se passaram
mais rápido que os meus pensamentos.
o tempo se esvaiu

quanto mais eu vivo, menos eu vivi
menos de vida me resta
Quanto mais eu aprendo, menos eu sei






Nada disso me surpreende
Para quem já está morto, estar vivo ainda é uma vantagem...




Imagem: David Ho - Unspecified digital image4

HÁ COISAS QUE NUNCA RESOLVEREMOS....




Espaços vazios que nos preenchem

Que se esforçam em se esvaziarem ainda mais
Temores que nos dominam
Nos lançam no profundo lago da melancolia
Ao nos erguermos, percebos que ela nos banha
Nos penetra célula a célula
Não há meios de expulsar toda a melancolia que nos toma como reféns
Cabe a nós apenas assimilá-la
E conviver com essa deficiência
Como o cego que sabe que nunca vai enxergar....

Imagem: Christina Neofotistou, Crucifixion

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A melancolia


Desperto numa chuvosa manhã de janeiro. Logo de imediato já me vejo acometido pelo cansaço. Sinto-me atordoado, olho para o teto mofado, as paredes que se descascam, e percebo uma presença magnânima. Olho para a poltrona à esquerda e a vejo. É a minha Melancolia, que mais uma vez veio me fazer companhia. Seu rosto lânguido revela um semblante confortável e fúnebre, um olhar que explica o porquê de seu nome. Pergunto:


- Quem és tu?


- Tu já sabes, dentro de ti há a resposta para essa pergunta - ela responde.


- Que queres tu? Por que tanto me persegues?


- És um tolo, não sou eu que te persigo, mas sim tu, que sempre me persegues. Tu que me invocas, no teu silêncio, o tempo todo. Tu que não consegues viver longe de mim. Sinto-me atordoada com isso, tu não te dedicas nem um pouco para à minha irmã, a Alegria, só queres saber de mim, não consegues viver sem a minha presença, pois sabes que sou a única que se importa com ti, sabes também que sou a única que nunca te abandono.


Não consigo antepor-lhe um contra-argumento. Olho mais uma vez para seu rosto, percebo o quanto é lindo e encantador, tento absorver aquela beleza reconfortante, mas meus olhos se contêm. O que mais me assusta, no entanto, é o fato de que tudo que ela diz é um nítido retrato da realidade. Dou um profundo suspiro, que acelera as minhas veias e me faz sentir contrições no peito. A única coisa que consigo enunciar-lhe, com toda a intensidade de um golpe há muito impulsionado:


- Tu és a minha alegria!


quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Alguns Aforismos de minha autoria.


Homens se explodem por aí por que nada lhes é mais glorioso. Eu continuo vivendo por que nada me é tão explosivo.

Antigamente me achava ridículo. Hoje em dia tenho certeza.


De que me adianta ter olhos sendo que pouco do que vejo me apraz?

E o pouco que agrada meus olhos me é inacessível?

Imagens: Alfred Kubin

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008


INFLEXÕES SOBRE MIM MESMO

Todo este ar que me circunda exerce sobre mim uma pressão imperceptível. Uma pressão ineficaz e ingênua. Esse mesmo ar que se impele para os meus pulmões, que é sorvido suavemente fazendo-me sentir a vida.
Depois este ar se abraça com meu sangue passando ambos a constituirem um único ser. Esse amor profundo que há entre eles, converte-os em substância homogênea, a vitalidade de um depende da do outro. Se um está doente, o outro também fica, como ocorre em todos os romances recíprocos.
Este meu sangue, mesclado ao produto da atmosfera intensa, converte-se-me em pensamentos. Distrtibui-se pelos meus vasos sangüíneos, me penetra em cada célula, imergindo meu corpo em vida. Passa pelo meu coração, pelo meu cérebro, embaralhando a minha mente, fazendo surgir em mim a percepção de que estou vivo, fazendo deste meu viver um fardo.
Disse Werter, extraindo as palavras do seu mais profundo âmago:
- Incrível como as coisas que mais nos trazem felicidades são também as que mais nos conduzem à desgraça!
Assim me sinto perante tudo. Amo o que me circunda e é justamente o que me circunda que mais me deixa infeliz. Maldito sangue esse, que me faz viver, me faz ter uma má relação com a vida. Essa mesma vida que odeio ser a mesma que me dá alegrias indescritíveis, forçando-me a amá-la.
Agora percebo, não é a vida que faz de uma pessoa feliz ou infeliz, mas sim a percepção que a pessoa faz da vida. De repente, digo para mim mesmo: “Espere um momento, me sinto bem, sou feliz! Sim, sou feliz! Como não pude perceber?” Mas, noutros momentos, quando estou acometido pela melancolia, vejo: “Que há no mundo? Porque nada me é agradável, nem a solidão, nem a companhia, nada, me é capaz de satisfazer-me, ora, como poder-me-ei dizer que vivo, se na vida nada me compraz?
Enfim, deduzo desta minha inflexão o seguinte: o único culpado é o pensamento. Se você acredita que as coisas estão bem, estão elas estão bem. Parafraseando Clarice Lispector: se você acredita em Deus, Ele existe, se você não acredita em Deus, ele não existe. Simples.
Porque penso? Porque pensar, em nossa espécie, é quase o mesmo que viver? Se se pensa mal, vive-se mal, se bem, bem… não sei. Como dizia Sócrates__ “só sei que não sei.” ­_­_eis minha única certeza.
Continuando: Porque os que não pensam são excluídos, dados como mortos? Convenço-me cada vez mais de que pensar é viver.
Quisera eu não poder pensar! Estar reduzido a um vegetal, incumbido de tão somente florescer perante o sol vitalizante. Estar sempre abraçado pelo ar, que me agasalharia, me acolheria, me daria todo o afeto de que se precisa. Ser de composição simples, desprovido de pensamentos, sem expectativas, sem medo, sem mágoas. Apenas viveria, e só isso e nada mais!



R.M. DEANGELO 21/12/2004

Imagem:skybox masters o homem que afrontou os receptores de sinais de satélites de Dave McKean