
Desperto numa chuvosa manhã de janeiro. Logo de imediato já me vejo acometido pelo cansaço. Sinto-me atordoado, olho para o teto mofado, as paredes que se descascam, e percebo uma presença magnânima. Olho para a poltrona à esquerda e a vejo. É a minha Melancolia, que mais uma vez veio me fazer companhia. Seu rosto lânguido revela um semblante confortável e fúnebre, um olhar que explica o porquê de seu nome. Pergunto:
- Quem és tu?
- Tu já sabes, dentro de ti há a resposta para essa pergunta - ela responde.
- Que queres tu? Por que tanto me persegues?
- És um tolo, não sou eu que te persigo, mas sim tu, que sempre me persegues. Tu que me invocas, no teu silêncio, o tempo todo. Tu que não consegues viver longe de mim. Sinto-me atordoada com isso, tu não te dedicas nem um pouco para à minha irmã, a Alegria, só queres saber de mim, não consegues viver sem a minha presença, pois sabes que sou a única que se importa com ti, sabes também que sou a única que nunca te abandono.
Não consigo antepor-lhe um contra-argumento. Olho mais uma vez para seu rosto, percebo o quanto é lindo e encantador, tento absorver aquela beleza reconfortante, mas meus olhos se contêm. O que mais me assusta, no entanto, é o fato de que tudo que ela diz é um nítido retrato da realidade. Dou um profundo suspiro, que acelera as minhas veias e me faz sentir contrições no peito. A única coisa que consigo enunciar-lhe, com toda a intensidade de um golpe há muito impulsionado:
- Tu és a minha alegria!